
À medida que cresce a complexidade economica as estruturas hierárquicas tradicionais têm se mostrado inadequadas em, ao menos, três necessidades cruciais das empresas: liderança, inovação e velocidade de resposta ao mercado.
Liderar está cada vez mais difícil. Prova disso é a intensa busca dos executivos por informações sobre novos estilos de liderança, além de consultorias de coaching e counsellling. Tomar decisões estratégicas também está muito mais difícil uma vez que a quantidade de variáveis envolvidas numa decisão cresceu exponencialmente nos últimos anos.
Processos de inovação tecnológica têm esbarrado em barreiras culturais. O relacionamento das empresas com seus clientes se torna cada vez mais personalizado demandando novos níveis de conhecimento para os profissionais responsáveis por esse contato.
Cada vez mais se toma consciência que a comunicação entre as diversas áreas e pessoas da empresa é crucial para o bom andamento dos negócios.
Quando as pessoas numa organização adquirem uma maior variedade de perfis profissionais há uma tendência natural ao aprendizado multifuncional, à complementaridade entre processos e atividades e à descentralização da tomada de decisões.
Embora de forma ainda não perceptível as estruturas hierárquicas já estão sofrendo uma transformação. Um estudo de maio de 2007 da UFPR (ver ref) efetuado em 500 indústrias brasileiras indica que há uma tendência à horizontalização das hierarquias.
Empresas que aprendem e se adaptam em ambientes turbulentos
As empresas se adaptam e aprendem sobre o que ocorre no meio ambiente (como mudanças nos preços das matérias primas, gostos dos consumidores, tecnologias, etc) e a habilidade de uma empresa para aprender afeta diretamente a sua performance.
À medida que o meio ambiente se torna mais complexo a habilidade de aprendizado de uma organização diminui. Freqüentemente, há a necessidade de visões multidisciplinares para compreender uma dada configuração de mercado, para solucionar uma dificuldade ou para elaborar uma estratégia. Atualmente, decisões isoladas são perigosas e arriscadas.
A percepção das empresas como mentes coletivas decorrentes de uma rede neural não-linear, onde cada ponto da rede recebe informação, processa e devolve para a rede num processo ininterrupto, pode ser determinante para que novas estruturas organizacionais emerjam.
Entendo que uma mudança de estrutura organizacional ocorre naturalmente ao longo do tempo à medida que as pessoas que compõem a organização ampliam seu conhecimento. Como um cérebro humano, uma mente coletiva é flexível, plástica e está em constante mutação.
Aliás, segundo um estudo do "Observatoire Français des Conjonctures Économiques" (ver ref) existem seis características similares entre empresas e cérebros humanos:
1. Processamento descentralizado e paralelo
A empresa é uma rede coordenada de pessoas que processam informações de forma paralela e serial para tomar decisões;
2. Tomada de decisões embutida
Decisões dentro de decisões;
3. Aprendizado por experiência
As pessoas se tornam competentes ganhando experiência através de tentativa e erro;
4. Adaptação ao ambiente
Uma vez que empresas lidam com diferentes ambientes a adaptação organizacional sugere que não há um meio ideal de organização;
5. Reconhecimento de padrões
À medida que as pessoas processam informação elas reconhecem padrões e, conseqüentemente, são capazes de processar informações que se assemelham a padrões aprendidos anteriormente;
6. Empresas contêm mais conhecimento que qualquer uma pessoa
A empresa não é uma simples coleção de pessoas, mas um conjunto coordenado de pessoas especializadas. Portanto, o conhecimento de uma empresa é maior que a somatória do conhecimento de cada pessoa que a compõe.
Dada a complexidade do ambiente em que vivemos a "performance" de uma empresa está diretamente relacionada com sua estrutura organizacional e com a tomada de decisões.
Acredito que as estruturas hierárquicas tradicionais tendem a se tornar mais orgânicas e descentralizadas à medida que a complexidade social cresce. Novos modelos de distribuição de excedentes entre as pessoas da organização também deverão surgir. A articulação da sociedade das redes está provocando um profundo impacto em todos os níveis das relações humanas.
REFERÊNCIAS
1. Microfísica do poder (Michel Foucault)
2. A verdade e as formas jurídicas (Michel Foucault)
3. Armas, germes e aço (Jared Diamond)
4. The firm as a dedicated hierarchy: a theory of origin and growth of firms
Raghuram G. Rajan, Luigi Zingales
National Bureau of Economic Research, Cambridge, Massachussets, USA
5. Firm Structure, Search and Environment Complexity
Jason Barr, Nobuyuki Hanaki
Department of Economics, Rutgers University, Newark
6. The hierarchical structure os a firm: a geometric approach
Leopoldo Yanes, Evelyn Ng, Kam Ki Tang, Rodney Beard
School of Economics, University of Queensland
7. Hierarchical Structure in Brazil Industrial Firms: an Econometric Study
Luis Otávio Façanha, Marcelo Resende
Instituto de Economia, UFRJ
8. Modeling the Firm as an Artificial Network
Jason Barr, Francesco Saraceno
Observatoire Français des Conjonctures Économiques, Paris
9. The origins of governments: from amorphy to anarchy and hierarchy
Matthew Baker, Erwin Bulte, Jacob Weisdorf
Department os Economics, Wageningen University